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Oitenta (3)

Por Carlito Peixoto Lima

Esses meus oitentas anos estão me remetendo a fatos marcantes em minha vida. Hoje me lembrei de minha entrada na Escola Preparatória de Cadetes de Fortaleza no longínquo ano de 1956. Era um menino.

No primeiro dia distribuíram, para cada aluno, um enorme saco com fardamentos, equipamentos, manuais. Levei o saco nas costas e arrumei no armário, forrei a cama, coloquei minha primeira farda de brim verde: calça, camisa de mangas compridas, por cima de uma cueca samba canção, cinturão, um gorro na cabeça, por fim calcei um coturno preto de laços entrelaçados. Logo o sargento gritava: “Primeiro ano em forma!” Pela primeira vez entramos em forma. Passamos o dia recebendo instruções de como seria a vida na Escola. Dia seguinte entramos na rotina: alvorada às 5:30 da manhã. Vestido de calção de educação física, camiseta e tênis a turma foi levada para o campo de futebol onde os tenentes ministraram vários tipos de ginásticas planejadas. Retornamos para o banho. No alojamento vestimos o roupão com o sabonete na mão, corremos para o banheiro coletivo. Logo, fardados, nos levaram para o café da manhã. Satisfeito com a gororoba, marchando, cada turma dirigia-se para as salas de aulas. No primeiro ano só matérias básicas: aritmética, álgebra, geometria, trigonometria, português, inglês. Ensino puxadíssimo com excelentes professores. Às tardes nos ministravam Instrução Militar.

Foi difícil a adaptação daquele menino da praia de uma infância extraordinária, livre, leve e solta na Avenida da Paz em Maceió. Várias vezes senti vontade de pedir desligamento da Escola, mas ao mesmo tempo a vontade de vencer aqueles obstáculos me dava força.

Certa tarde de sábado fiquei indignado com um trote de um veterano, mandou que eu arrumasse seu armário, engraxasse coturnos, etc. Perdi meu sábado. Delatar jamais. Então eu decidi pedir desligamento e voltar para minha Maceió. Porém, houve uma santa coincidência, na segunda-feira recebi uma carta de mau pai que decidiu minha vida para sempre.

Carlito,

Meu afetuoso abraço. Recebemos a tua carta que nos encheu de alegria ao sabermos da tua satisfação aí na Escola, mas também de saudade do filho querido, que tanta falta tem feito.

Porém, Carlito velho, a vida é assim mesmo; é luta brava, principalmente na carreira que escolhestes.

Temos absoluta certeza, e inabalável fé em Deus, que serás muito feliz.

Não fraquejes ante nenhum obstáculo; enfrenta-o sempre de ânimo forte. Acostuma-te desde agora aos rígidos princípios da disciplina; aceita-a conscientemente, pois ela é a mais bela característica do soldado.

Estuda, dedica-te com muito esmero às tuas obrigações escolares; este hábito salutar será constante na tua vida profissional e fator decisivo na carreira.

O valor de um oficial está em função da sua cultura, do seu saber, do seu carinho aos afazeres profissionais.

Procura, desde já, meu filho, ser “Caxias”. Mas “Caxias” sem intransigência. Correto no cumprimento dos deveres, porém humano, delicado, sereno e leal no tratamento com seus subordinados e companheiros. O oficial que assim procede é respeitado, acatado e querido por todos.

Pensa sempre no bem do Brasil; sirva mesmo de rumo aos teus atos e ações o pensamento constante na grandeza da Pátria querida.

Porém, jamais te cumplicies aos aventureiros da política malsã, que infelizmente ainda infesta o Brasil. Seja sempre digno, mantenha sempre bem alto o alvo de tuas ambições e afetos; porém também sempre te lembres que são injustificáveis as “quarteladas” e a “ditadura”.

São estes, meu filho, os conselhos gerais, que a experiência de mais de trinta anos de serviços do teu pai, que o carinho e o afeto que te dedico, que a vontade imensa de te ver vitorioso na carreira que espontaneamente escolhestes, me inspiram.

São advertências saídas no mais íntimo do meu coração.

Prepara-te, pois, para a vida, meu filho, certo de que nem tudo serão flores. Os espinhos, as ilusões surgirão fatalmente. Mas que nada abata o teu ânimo forte, o teu caráter, a tua dignidade, a tua coragem, o teu ardor cívico, o teu amor à carreira que abraçastes.

Esta a única riqueza que teu pai pode legar.

Guarda com carinho esta primeira carta que te escrevo e que a Divina Providência te faça muito feliz. Tua mãe e teus irmãos te abraçam. A saudade de seu pai.  Mário Lima.

( tenho essa carta guardada desde abril de 1956)

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