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Bancos pressionam empresas de saúde a aumentar preços para lucrar com pandemia

Por Lee Fang

NAS ÚLTIMAS SEMANAS, representantes de bancos de investimento têm pressionado as companhias do setor de saúde que atuam na linha de frente do combate ao novo coronavírus, incluindo as farmacêuticas que desenvolvem tratamentos experimentais e empresas de suprimentos médicos, a buscar maneiras de lucrar com a crise.

A imprensa vem mostrando casos de pessoas que aproveitaram a escassez de produtos de higiene e materiais médicos no mercado para acumular máscaras e desinfetantes de mão com a intenção de revendê-los a preços mais altos. Porém, os maiores players do setor da saúde estão preparados para se aproveitar dos bilhões de dólares em gastos emergenciais com a pandemia, assim como os banqueiros e investidores que investem nestas empresas.

Nas últimas semanas, representantes de bancos de investimento falaram claramente sobre a oportunidade de aumentar os preços de medicamentos durante calls realizadas com investidores e nas conferências com a indústria da saúde. Em alguns casos, eles receberam fortes críticas dos executivos do setor. Em outros, fizeram piada sobre usar a atenção dada ao covid-19 como forma de se esquivar da pressão pública em relação à crise dos opioides que assola os Estados Unidos.

A Gilead Sciences, empresa que produz o remdesivir, o medicamento mais promissor para o tratamento dos sintomas da covid-19, é uma das que enfrenta pressão dos investidores. O remdesivir é um antiviral inicialmente desenvolvido como tratamento contra a febre do Nilo Ocidental, dengue e zika, além de síndrome respiratória do Oriente Médio, a MERS, e a síndrome aguda respiratória grave, a SARS. A Organização Mundial da Saúde anunciou que “existe apenas um medicamento no momento que acreditamos ter eficácia real no tratamento dos sintomas do coronavírus”, referindo-se ao remdesivir.

O medicamento, apesar de ter sido desenvolvido em parceria com a Universidade do Alabama por meio de um aporte do Instituto Nacional de Saúde do governo federal, é patenteado pela Gilead Sciences, uma gigante farmacêutica sediada na Califórnia. A empresa vem enfrentando fortes críticas nos últimos anos por suas práticas de preços. A Gilead cobrava US$ 84 mil por um suprimento anual de tratamento contra a hepatite C, que também foi desenvolvido com o apoio do governo para as pesquisas. A estimativa de receita com o remdesivir é de US$ 2,5 bilhões.

Durante uma conferência com investidores no início deste mês, Phil Nadeau, diretor administrativo do banco de investimentos Cowen & Co., questionou executivos da Gilead Science se a empresa havia planejado uma “estratégia comercial para o remdesivir” ou se poderia “criar um negócio” a partir do medicamento.

Johanna Mercier, vice-presidente executiva da Gilead, observou que a empresa está doando produtos, “assumindo os riscos da fabricação e aumentando sua capacidade” para fazer o melhor na busca de uma solução para a pandemia. Segundo ela, a Gilead está focada principalmente em garantir o “acesso do paciente” e o “acesso do governo” ao remdesivir.

“A oportunidade comercial pode surgir caso isso se torne uma doença sazonal, ou se houver possibilidade de estocagem, mas isso é assunto para mais adiante”, acrescentou.

Na semana passada, Steven Valiquette, diretor administrativo do Barclays Investment Bank, questionou executivos da Cardinal Health, uma distribuidora de máscaras N95, ventiladores e produtos farmacêuticos, insistindo em perguntas sobre a possibilidade de aumento nos preços em uma série de produtos da empresa. O executivo queria saber se era possível “compensar uma parte do risco de escassez de produtos” pelo “lado dos preços”.

Michael Kaufmann, executivo-chefe da Cardinal Health, respondeu que “até agora, a empresa não via nenhum aumento nos preços que diria estar relacionado ao coronavírus”. Ele afirmou que a Cardinal Health avaliaria os diversos fatores para tomada de decisão, e “sempre lutaria de forma agressiva para garantir a busca pelo menor custo”.

“Vocês podem aumentar o preço em alguns casos para compensar uma eventual escassez de oferta, de modo que o resultado seja consistente com sua matriz de lucros?”, insistiu Valiquette. Kaufman respondeu que as decisões de preço dependeriam de contratos com fornecedores, embora a empresa apresente maior flexibilidade em relação a algumas vendas de medicamentos. “Conforme você altera o lado dos custos, é possível fazer alguns ajustes”, observou.
A discussão por teleconferência ocorreu durante a Barclays Global Healthcare Conference, em 10 de março. Em certo momento, Valiquette brincou que “um ponto positivo” sobre o coronavírus seria a Cardinal Health receber menos questionamentos a respeito das ações judiciais relacionadas à epidemia do uso opioides no país.

A Cardinal Health é uma das várias empresas acusadas de ignorar avisos e inundar farmácias e estabelecimentos que prescrevem medicamentos de forma irregular – conhecidos como pill mills – com remessas de milhões de analgésicos com alto potencial de dependência. Kaufmann observou que as negociações para um acordo ainda estão em andamento.

A Owens & Minor, uma empresa de logística de assistência médica que fabrica e fornece aventais cirúrgicos, máscaras N95 e outros equipamentos médicos, também fez uma apresentação na Barclays Global Healthcare Conference no dia seguinte. Valiquette, novamente citando a crise da covid-19, perguntou à empresa se ela poderia “aumentar os preços de alguns dos produtos que apresentam maior demanda”, e fez graça, acrescentando que tal postura “provavelmente não é politicamente tão correta no atual momento”, mas que estava “curioso para ouvir” se a empresa consideraria a possibilidade de aumentar preços.

A manifestação foi repreendida de forma dura pelo executivo-chefe da Owens & Minor, Edward Pesicka. “Acho que em uma crise como essa, nossa missão é mesmo servir o cliente. E do ponto de vista da política de integridade, temos acordos de preços ”, afirmou Pesicka. “Portanto, não vamos aproveitar isso para congestionar a demanda dos consumidores e aumentar os preços para obter benefícios a curto prazo”.

A AmerisourceBergen, outra distribuidora de produtos de saúde similar à Cardinal Health, e também alvo de disputas judiciais sobre o uso de opióides em diversos estados, recebeu questionamentos parecidos de Valiquette no evento da Barclays. Steve Collis, presidente e diretor executivo da companhia, observou que sua empresa sempre atuou contra as demandas políticas para limitar o preço dos produtos farmacêuticos.

O executivo revelou que esteve recentemente em um jantar com outras empresas farmacêuticas envolvidas no desenvolvimento de “vacinas para o coronavírus” e lembrou que as companhias norte-americanas, que operam sob pouca intervenção no preço dos medicamentos, estavam entre as líderes da indústria – uma alegação contestada por especialistas, que observam na falta de regulação da indústria farmacêutica uma explicação para os poucos investimentos em tratamentos virais, vistos como menos lucrativos. As empresas líderes no desenvolvimento de uma vacina para a covid-19 são baseadas na Alemanha, China e Japão, países com alto nível de influência governamental na indústria farmacêutica.

Conforme Collis, a AmerisourceBergen tem sido “muito ativa com as principais partes interessadas em Washington, e nossa prioridade é educar os formuladores de políticas sobre o impacto das mudanças nas regulamentações”, com foco na “discussão racional e responsável sobre preços de medicamentos”. Depois, Valiquette perguntou à AmerisourceBergen sobre o litígio judicial na questão dos opioides. As ações podem custar até US$ 150 bilhões entre os diversos réus dos setores farmacêutico e de distribuição de medicamentos. A Purdue Pharma, uma das empresas alvo da ação, já buscou proteção frente à ameaça judicial ao solicitar falência.

“Não podemos falar muito”, respondeu Collis. Mas o executivo deu a entender que sua empresa está usando a importância de seu papel na resposta à crise da pandemia como um fator para as negociações de um acordo. “Eu diria que esta crise do coronavírus reforça muito do que dizemos sobre como é importante sermos empresas financeiramente muito fortes, e termos uma grande capacidade de fluxo de caixa para investir e continuar ampliando nossos negócios e o relacionamento com os clientes ”.

A esperança de que o coronavírus beneficie as empresas envolvidas na crise dos opióides já se confirmou em alguns aspectos. A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, anunciou recentemente que seu processo contra empresas e distribuidoras de opioides, incluindo a Cardinal Health e a AmerisourceBergen, com início previsto para 20 de março, seria adiado devido à epidemia do coronavírus.

A PRESSÃO DO MERCADO tem incentivado as grandes empresas da indústria da saúde a gastar bilhões de dólares em recompras de ações e lobby, em detrimento à pesquisa e desenvolvimento. O Barclays se recusou a comentar e a Cowen & Co. não respondeu a um pedido de comentário.

As consequências do coronavírus podem trazer riscos em potencial para as operadoras de serviços de saúde com fins lucrativos. Na Espanha, o governo assumiu o controle de prestadores de serviços de saúde privados, incluindo hospitais particulares, para gerenciar a demanda de tratamento para pacientes com o novo coronavírus.

Mas os interesses da indústria farmacêutica nos EUA representam uma grande força política. Alex Azar, secretário do HHS, o Departamento de Saúde dos Estados Unidos, foi presidente da divisão norte-americana da gigante dos medicamentos Eli Lilly, e também membro do conselho da Biotechnology Innovation Organization, um grupo de lobby da indústria farmacêutica.

Durante uma audiência no Congresso no mês passado, Azar rejeitou a possibilidade de que uma eventual vacina ou tratamento para a covid-19 tenham comercialização fixada a preços acessíveis. “Queremos garantir que trabalhamos para tornar acessível, mas não podemos controlar esse preço porque precisamos que o setor privado invista”, disse Azar. “A prioridade é obter vacinas e tratamentos. O controle de preços não nos levará a isso.”

A medida que liberou US$ 8,3 bilhões iniciais para despesas com coronavírus foi aprovada no início de março para fornecer apoio financeiro à pesquisa de vacinas e outros tratamentos com drogas, e continha um dispositivo que impede o governo de adiar o uso de qualquer novo medicamento que possa auxiliar na crise por questões relacionadas à acessibilidade do preço. Conforme informações, o texto legislativo foi definido por lobistas do setor.

Joe Grogan, diretor do Conselho de Política Doméstica, durante um briefing sobre o novo coronavírus com seguradoras de saúde na Sala Roosevelt da Casa Branca, em Washington, DC, EUA, na terça-feira, 10 de março.

Joe Grogan, diretor do Conselho de Política Doméstica, durante um briefing sobre o novo coronavírus com seguradoras de saúde na Sala Roosevelt da Casa Branca, em Washington, DC, EUA, na terça-feira, 10 de março. Foto: Al Drago/Bloomberg via Getty Images

Como o Intercept divulgou, Joe Grogan, um importante consultor de política interna da Casa Branca, que agora trabalha na força-tarefa de Donald Trump para o coronavírus, já atuou como lobista da Gilead Sciences. “Apesar da pressão que sofrem dos mercados, os CEOs são muito discretos, e nesse caso devem estar atentos ao aumento abusivo dos preços. Eles estarão colocando em jogo muito mais que suas reputações”, afirma Robert Weissman, presidente da Public Citizen, organização de interesse público, em entrevista ao Intercept. “Haverá uma reação que impedirá lucros abusivos, mas também poderá levar a limitações estruturais em seus monopólios e na sua autoridade mais adiante”, projeta.

O grupo de Weissman apoia um esforço liderado pelo deputado Andy Levin, democrata de Michigan, que pediu ao governo o acionamento da Defense Production Act, uma lei de 1950 que mobilizaria um esforço de produção para aumentar a fabricação doméstica de suprimentos de saúde. Existem outras medidas que o governo pode adotar para evitar a manipulação de preços, acrescentou Weissman. “O produto da Gilead é protegido por patente e monopólio, mas o governo tem uma grande parcela de responsabilidade sobre ele devido ao investimento que foi feito”, disse Weissman.

“O governo tem autoridade especial para fazer com que os produtos que ajudou a financiar tenham concorrência genérica para sua produção, e tenham seu licenciamento não-exclusivo impedido”, continuou Weissman. “Mesmo para produtos que não tenham conexão com o financiamento do governo, este pode forçar o licenciamento para a concorrência de genéricos para sua própria aquisição”.

As empresas farmacêuticas muitas vezes se abstêm do desenvolvimento de vacinas devido ao potencial de lucro limitado que um tratamento único possui. Além disso, as companhias que produzem kits de testes e outras empresas de suprimentos médicos têm poucos incentivos de mercado para a produção doméstica, e especialmente para a ampliação de capacidade de produção das fábricas para o curto prazo. Em vez disso, conforme Levin e Weissman, o governo deveria assumir o controle direto da produção dos suprimentos médicos necessários e da produção de medicamentos genéricos.

Na sexta-feira passada, Levin divulgou uma carta assinada por outros Democratas da Câmara solicitando ao governo que assumisse a produção de ventiladores, respiradores N95 e outros suprimentos fundamentais que estariam em falta.

Até então inconcebível, a política foi aprovada na quarta-feira, quando Trump apresentou um plano para fazer uso da Defense Production Act e obrigar empresas privadas a produzir suprimentos necessários durante a crise. A lei, inclusive, permite que o presidente fixe um preço máximo para bens essenciais usados em situações de emergência.

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