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Três bandeiras

Uma geração de combatentes políticos, ou pelo menos parte dela, que surgiu durante a luta contra o regime civil-militar de 1964 a 1985, tinha três referências centrais: a luta pelos direitos dos trabalhadores, a intransigente batalha pelas amplas liberdades democráticas e a defesa da soberania nacional, do Brasil.

A visão de muitos desses militantes tem sido norteada, até os dias atuais, por essas três consignas como cláusulas pétreas seja como ativistas políticos, na produção intelectual, ou simples cidadãos e cidadãs.

A defesa dos direitos dos trabalhadores, valorização radical das liberdades políticas, das fundamentais garantias democráticas, e a defesa do Brasil são para essa geração, questões de princípios inegociáveis.

É bom lembrar que o período da luta contra o arbítrio coincidiu com a época da chamada Guerra Fria, onde dois grandes campos, Estados Unidos, parte dos Países ocidentais e as nações do chamado campo socialista sob a liderança da extinta URSS, disputavam a hegemonia territorial, ideológica e geopolítica no planeta.

Estados como a França, de grandes tradições e protagonismo internacional procuraram exercer a sua própria liderança mundial, sob intensa pressão dos dois gigantes globais, EUA e URSS.

Charles de Gaulle, herói da resistência francesa contra as hordas nazistas expansionistas, que na Segunda Guerra Mundial ocuparam, inclusive, a Europa e a França, disse certa vez anos após o fim do conflito mundial e como presidente francês durante a Quinta República que: só é possível entender a Guerra Fria se nos detivermos sobre os interesses específicos de Estado dos EUA e da URSS que os moviam na época.

De fato, muitos historiadores e cientistas políticos hoje afirmam, com base em farta documentação, que as explosões estudantis em Maio de 1968, sob liderança de grupos anarquistas, tinham como objetivo anular o crescente papel internacional independente da França e desmoralizar De Gaulle submetendo a França à bipolarização mundial.

O golpe de Estado de 1964 no Brasil efetivou-se por várias razões, pelos interesses e manutenção de privilégios arcaicos de grande parte das elites econômicas nativas. Mas foi exatamente a Guerra Fria o fator decisivo, com o apoio direto dos EUA, fartamente comprovado, contra o governo constitucional do presidente João Goulart.

Hoje não mais existe a bipolarização mundial com a debacle da URSS. Durante anos tivemos o período da unipolaridade global sob a liderança inconteste dos EUA.

Agora vivemos a época da multipolaridade geopolítica, econômica e militar com o protagonismo dos Estados Unidos, China, segunda economia global, da Rússia, Índia e o Brasil. Com o final da Guerra Fria, desparece também a Guerra ideológica que a movia febrilmente.

Mas surge uma nova Guerra Ideológica sob as condições do mundo reconfigurado. É a Guerra Híbrida que pode ser usada pelas grandes potências para sustar os novos protagonistas em ascensão, como é o caso do Brasil. E ela tem sido usada em nosso País de forma intensa desde, pelo menos, 2013.

O objetivo central tem sido a fratura da sociedade nacional, retardar o crescimento econômico, o desenvolvimento do País, o seu papel de playerdiplomático e comercial, num cenário internacional multipolar em desenvolvimento acelerado.

Além do mais, com a crise econômica e financeira global de 2008, houve um brutal processo de acumulação e centralização do Capital Especulativo que não investe na produção mas no lucro rápido a curto prazo.

Quanto maior a crise econômica (e social) das nações, maior o lucro desse capital parasitário e predador. Mas o capital especulativo, que concentra para si a maior parte das finanças globais, também investe fortemente na chamada Guerra Cultural Ideológica aproveitando-se das formulações dos “novos filósofos” surgidos em Maio de 1968 em Paris, adequando suas teses ao século XXI.

A lacerante crise econômica que se abate sobre o Brasil, a crise da segurança pública com o narcotráfico transnacional que faz rota e escala no Brasil, a defenestração da vida política institucional, e outras questões, resultaram na “Tempestade Perfeita” nesta campanha presidencial.

Onde a agenda predominante não foram as soluções econômicas, sociais, de infraestrutura, saúde, educação etc., para retirar a nação da crise e apontar novos rumos ao crescimento econômico, a inclusão de milhões de desempregados no mercado de trabalho.

O que assistimos foi uma Guerra Cultural extremamente polarizada pelo ódio. E a crise pode se desdobrar com a predominância do liberalismo econômico radical.

Daí a atualidade das três grandes bandeiras que sempre unificaram o povo brasileiro: a defesa dos direitos dos trabalhadores, a defesa intransigente das liberdades democráticas e a defesa do Brasil. O que exige a reunificação da sociedade nacional, o desenvolvimento soberano do País, seu protagonismo em condições de uma geopolítica multilateral em acelerada reconfiguração.

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