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O exemplo de João Carlos

Por Arnaldo Niskier

Na Feira do Livro de Porto Alegre um fato chamou a atenção do público, arrancando demorados aplausos.  O estivador aposentado João Carlos dos Santos, de 70 anos, graças ao programa de alfabetização de adultos do Centro de Integração Empresa-Escola do Rio Grande do Sul, pela primeira vez, conseguiu ler a faixa situada na abertura do evento: “Bem-vindos:”

Representava a realização de um sonho, acalentado há muitos anos.  Quando recebe felicitações pelo seu feito, responde humildemente: “Eu não mereço tanto.”  Ele desistiu dos estudos ainda no primeiro ano do ensino fundamental, para ajudar a mãe viúva no sustento da família.  Trabalhou na construção civil.

“Sempre , me incomodou muito não saber ler o nome da linha de ônibus que eu pegava para ir ao trabalho.  Na verdade, me sentia como se fosse um cego.” – diz ele.

João Carlos foi incentivado por um amigo a procurar as aulas gratuitas do CIEE(que tem 134 alunos).  E fala, com muita emoção: “Minha professora, Débora Westhauser, é o meu Deus na terra.  E o CIEE é a minha segunda casa.”  Hoje, com muita alegria.  Já é capaz de ler o nome “Leopoldina”, que é o ônibus que o leva ao trabalho.

Mas a primeira palavra que conseguiu escrever foi “mãe”.  Diz isso com muita emoção.  Quando avançou nos estudos, foi aprendendo outras palavras importantes para a sua vida, como conhecimento, esperança, aprender, acreditar, felicidade, liberdade e vida.  Escreve todas elas com imensa alegria, reconhecendo o significado de cada uma delas para a sua existência.

Os funcionários do CIEE(que tem representação em todos os Estados brasileiros) doaram 400 livros para a Feira  Estadual, o que permitiu que  João Carlos fizesse a sua escolha: um livro sobre a Turma da Mônica, de Maurício de Souza, e outro de “Contos”, de Machado de Assis.  Não deixou de prestar atenção numa outra obra, esta de Luís de Camões.

Agora, o sonho do nosso homenageado é levar outros livros para ler com os seus netos.  “Pode existir maior alegria?” – pergunta ele, com a convicção de que agora percorre um caminho sem volta.  Louve-se, nessa história toda, o trabalho de  educação e assistência social do Centro de Integração Empresa-Escola, sobretudo em regiões carentes do nosso país.

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