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Argentina Veterana

Por Carlito Lima

Há mais de dez anos deixei de dirigir, só ando de táxi, tornei-me amigo de taxistas. Gosto de conversar com esses motoristas anônimos sobre futebol, política (é um termômetro), tudo o que acontece na cidade. Semana passada, peguei um taxi no posto em frente onde moro, disse o destino ao amigo taxista, o Arara. Fomos conversando, perguntei sobre o movimento dos turistas. Ele não se fez de rogado, gosta de contar casos, ótimo contador de história. Enfrentando o trânsito louco, ele contou-me com entusiasmo sua aventura.

  – “O senhor não vai acreditar. Eu aguardava passageiro estacionado no posto, eram quase 10 horas, quando a argentina apareceu; coroa bonita, vestido transparente de renda branca, por baixo maiô azul. Sorrindo foi negociando o custo em levá-la à praia de Ipioca e ficar esperando até às duas da tarde, o almoço ela pagava. Fiz meus cálculos, ela aceitou. Sentou-se no banco dianteiro, partimos rumo ao litoral norte. A coroa se apresentou: Filipa, mora em Córdoba, fascinada por Maceió, está comprando um apartamento na Jatiúca, sempre passa férias e feriados, conhece todas as praias da cidade, é apaixonada por Ipioca. Ficou empolgada ao passarmos pelas novas ruas e avenidas em frente ao mar. Em Ipioca estacionei embaixo de uma árvore, Filipa desceu, rumou à barraca de praia, acompanhei-a à distância. Percebi quando pediu ao garçom, sombrinha, mesa, cadeira. Eu apreciando. A argentina tirou o vestido, ficou de maiô. Respirou fundo, de repente correu, entrou no mar, pulou as marolas e mergulhou.”

 Interessadíssimo na história, perguntei: “que tal a coroa?”

“Uma Deusa, corpo enxuto, tudo em seus lugares, foi campeã de natação na Argentina.” Respondeu o Arara entusiasmado. Continuou.- “A bonitona nadou meia hora no mar. Saiu da água saltitando, feliz, alegre, sorrindo, deu-me um adeus ao longe, retornou à mesa, ajeitou a sombrinha pediu ao garçom cerveja e peixe frito, camarão. Na segunda cerveja ela virou-se, chamou-me com os dedos, atendi, sentei-me a seu lado, num português com sotaque entendível, conversamos bastante. Ela trocou a cerveja por uísque, eu bebendo coca cola. Cada vez soltava-se mais, ela perguntou-me que tal a veterana? Só depois entendi que veterana é coroa, mulher madura, seminova, em argentino. Respondi: “A senhora ganha de muita jovem”

  Arara, todo orgulhoso disse que houve um clima de paquera.

“Filipa puxou assuntos picantes, sexo e coisa e tal. Ela perguntou-me se queria almoçar em algum restaurante ou se comeria ali, na barraca, respondi-lhe que o peixe estava ótimo, matava a fome com aquele delicioso camorim e camarão. Ela tomava uísque como se fosse cerveja, sorria, cantava, quase embriaga. Deu três, ela falou que não importasse, pagava mais. Às quatro horas da tarde ela pagou a conta. Levantou-se, eu ajudei-a a levar o vestido, de maiô entrou no carro, cantando e sorrindo. Ao sentar-se, de repente olhou para mim, puxou meu rosto, beijou-me a boca, ficamos grudados. Olhamos olhos nos olhos, ela deu as ordens, para o hotel. Parti com o carro, ansioso, conversando com a veterana que cantava e sorria No hotel a levei ao quarto. Nos abraçamos. Fomos ao banho. Passei um resto de tarde maravilhoso. Coroa extraordinária, a argentina, sabe tudo na cama. Nos amamos até às nove da noite. Pagou-me o combinado, deixei-a na cama já dormindo.”

Eu ansioso por saber se a argentina estava ainda na cidade, perguntei se ele a procurou, qual hotel que estava hospedava. Arara continuou sua história.

   “No dia seguinte fui ao hotel, encontrei-a no café da manhã, pediu-me para sentar, disse-me em seu espanhol. “Arara, me gustó sair con usted, pero, saio solamente una vez, sin repetir lo taxista, una vez cada, una vez nada más, solamente una vez.” Levantou-se, subiu ao apartamento. Com alguns dias descobri, três colegas taxistas tiveram a mesma aventura maravilhosa com a argentina. Vão completar dois meses, nunca mais avistei a veterana argentina”.  

Chegamos ao nosso destino, Arara parou o taxi, deixou-me pensando na história, com uma ponta de inveja do Arara.

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