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A Pelerine

Por Carlito Lima

Adalberon cursava a Academia Militar das Agulhas Negras nos anos 60.  Orgulhava-se de ser cadete e adorava se exibir. Fazia sucesso entre as garotas quando chegava à Maceió nas férias.

No seu último ano do curso, ele aproveitou uma semana de férias de junho voou para sua terra. Foi convidado para uma festa de 15 anos muito badalada na sociedade alagoana. O pai da moça, um rico deputado, morava numa mansão na praia de Pajuçara.

Decoração suntuosa, mesas espalhadas nas salas, muita bebida e comida. A Orquestra Tabajara de Severino Araújo animava o aniversário de Betinha.

Os jovens dançavam no imenso salão iluminado por quatro vistosos lustres. Adalberon vestiu sua farda de gala, como chovia, ele levou também sua pelerine azul marinho, capa longa usada como integrante do uniforme do cadete, que cobre os ombros e a parte superior do corpo, com fendas para os braços.

Quando a orquestra iniciou uma bonita música Adalberon avistou uma jovem no canto da sala com olhares insistentes para ele. Num impulso caminhou em direção à bela moça vestida de preto. Aproximou-se; antes de ele convidá-la para dançar, a moça abriu os braços dizendo que já o esperava. Juntaram seus corpos rodopiando o salão com um abraço apertado. Os dois se olhavam como se uma paixão momentânea houvesse surgido.

Certo momento ele perguntou por seu nome. Ela se chamava Neuza, a melhor amiga de Betinha, a aniversariante. Ele também se apresentou dizendo que no final do ano se formava na Academia Militar. Neuza respondeu apertando a mão de Adalberon com sua mão fria. – “Eu já sabia!”.

O cadete ficou impressionado com a beleza pálida da jovem. Contou suas histórias e fanfarronice na Academia Militar. Ela mostrou-se bastante interessada, juntou seu corpo ao do cadete, e assim ficaram dançando por muito tempo, mudos, apenas se afastando algumas vezes para se olharem. Caso de paixão fulminante. Certa hora, Neuza lhe falou que devia ir para casa, tinha prometido chegar antes da meia-noite. Ele se ofereceu para levá-la. Na saída da mansão apanhou a pelerine. Como a chuva era intensa, num gesto elegante, Adalberon cobriu sua companheira com a pelerine protegendo-a da chuva e correram em direção ao ponto de ônibus.

Tomaram o ônibus “Pajuçara–Trapiche da Barra”, estava quase vazio. Sentaram-se num banco do fundo, conversaram como se conhecessem há muitos anos. Quando passava pela Avenida da Paz, Adalberon puxou o rosto de Neuza e deu um beijo ardente em seus frios lábios. De repente percebeu que ela chorava. Continuaram aos beijos e abraços durante o resto do percurso.

Perto da Praça da Faculdade de Medicina Neuza tocou a campainha, o ônibus parou, eles desceram. Ela pediu para não acompanhá-la, morava perto, no dia seguinte devolveria a pelerine.

Adalberon seguiu com olhar os passos de Neuza até ela desaparecer na escuridão da rua, no oitão do Cemitério Nossa Senhora da Piedade.

Pela manhã o cadete apaixonado acordou-se com a figura da namorada gravada na cabeça e no coração. Quando o relógio bateu sete horas da noite Adalberon estava na Praça da Faculdade olhando os passantes em busca de um vulto parecido com sua amada. Deu voltas no quarteirão, passou dezenas de vezes na rua em que ela desapareceu. Perguntou a algumas pessoas se conhecia Neuza. Até que uma senhora se assustou quando indagada, informou que ela havia morado naquela casa, apontando para um bangalô.

Adalberon encheu-se de coragem, bateu à porta. Atendeu uma senhora com aparência triste. Ficou trêmula e assustada quando o rapaz perguntou se Neuza ainda morava naquela casa.

A velha mulher sentou-se numa cadeira da varanda e perguntou quem era o rapaz. Ele disse ser amigo de Neuza, contou como havia conhecido, tinham marcado encontro naquela noite na praça.

Adalberon arrepiou-se do dedo do pé aos cabelos da cabeça quando a triste senhora respondeu que no dia anterior tinha feito um ano de sua morte num desastre de carro. O marido da triste senhora ao ouvir a história emudeceu.

Quando acalmaram Adalberon contou detalhes do encontro da festa. Inclusive que havia deixado com Neuza sua pelerine.

Os três resolveram ir ao cemitério. Entraram pela alameda principal até a capela, havia um velório noturno, uma família chorava seu morto. Desviaram para direita onde estava a sepultura de Neuza. Ao se aproximarem deu-se a grande surpresa, a pelerine azul marinho cobria o túmulo de Neuza. Os três emocionados ficaram no cemitério até mais tarde quando Adalberon retirou-se para casa. Só conseguiu dormir ao tomar oito doses de uísque conversando com o pai.

Contam no bairro que uma misteriosa mulher vagueia pelos arredores do cemitério depois da meia-noite. Muitos moradores do Prado e do Trapiche juram ter visto a mulher de preto circulando pelas ruas.

57 anos se passaram desse acontecimento, o Coronel Adalberon todos os anos viaja à Maceió, cumpre a obrigação em colocar um buquê de rosas brancas e rezar um terço no túmulo de Neuza.

 

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